quarta-feira, 14 de novembro de 2018

A festa


A festa acabou. A festa dura para sempre. A festa acontece depois do acidente, não há sangue que aguente. A festa começou entre as flores e as bebidas sem nome. Todos para ali armados em deuses num pequeno Olimpo. Tudo a acontecer em câmara lenta, na voracidade canibal dos sentidos. Toda aquela chuva quente a convidar a nudez selvagem, elegíaca. A festa eram gritos, risos, era recreio, era a promessa de uma praia impossível. Música, dança poente. A festa acabou, na certeza de durar para sempre.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Mármore


Quando se está numa relação, está-se a 20%, a 50%, a 80%? Está-se a 100%? No seu melhor, está-se sem limites. Não há zonas reservadas. Há o que se dá e partilha e há o que não se dá e não se partilha. 
Ninguém é perfeito. E o que se sente, por muito arrebatador que seja, também não é perfeito. Mas zonas proibidas é algo que não deve haver e muito menos serem impostas. No amor, existe medo e desconfiança. É um facto da vida. Se por um lado, isto deve ser aceite, por outro lado, não deve ser alimentado e fomentado. No amor, cuidamos mais do outro do que de nós próprios e fazê-lo é cuidar de nós próprios. Se não é isso que acontece, então não é amor, não é amizade. É mármore sem forma e sem escultor à vista.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Transcender


«É como se houvesse uma conexão profunda com outro ser humano em todos os seus níveis e dimensões. E talvez esteja aqui uma possível explicação para ter lutado sempre contra o deixar cair essa conexão. É uma coisa que se calhar não se explica, só se sente. Talvez quando olhos nos teus olhos, vejo-me a mim, de certo modo. Devolves-me o meu olhar. Sim, comunicamos mais pelo olhar do que pela palavra.»

terça-feira, 16 de outubro de 2018

S/ título


...e agora que não consigo dormir porque não páras de gritar dentro da minha cabeça, vou tomar um dos comprimidos que me deste para dormir. Como é estranho as coisas que fazemos por vezes parecerem conversas com um «eu» futuro. Ou por vezes, fazemos a pergunta de um lado da fronteira e respondemos já do outro lado. Viver é como um interminável processo de partilhas, de quem fica com o quê e as alegrias e dissabores que isso provoca. Um processo de partilhas com nós próprios, com o resto do mundo e de outros para connosco. Nunca se sabe quando o mais pequeno gesto vai mais tarde adquirir uma dimensão maior apenas porque algo mudou. Desceu-se ou subiu-se um degrau, um passo mais e estamos do outro lado da fronteira e é aí que está o resto da vida, já não no passo anterior. Viver é pois o momento entre um passo e outro. Pousar o pé no chão é apenas a mínima pausa para respirar, olhar para trás, olhar para a frente e continuar a viver. E a seu tempo, os comprimidos terão acabado e a tua voz terá ficado tão baixa que deixei de a ouvir.
((Oversharing, my dear, is not honesty)

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Espaço e distancia


O espaço entre nós, a distancia entre nós. Espaço, distancia. Serão a mesma coisa? O espaço entre nós pode ser uma coisa partilhada. Estarmos no mesmo espaço, eu aqui e tu aí. Perto. Tão perto que eu posso estar dentro de ti e o único espaço entre nós pode estar a ser apertado pelas nossas peles suadas.
Já a distancia quer dizer que talvez haja espaço a mais entre nós. Eu estou aqui e tu estás ali, fora do meu alcance e eu fora do teu. Vento pode passar entre nós, oceanos, gaivotas, comboios, rastos de aviões. Distancia implica tempos diferentes. Eu tenho o meu tempo e tu tens o teu. Distancia, opções, decisões. Eu com as minhas e tu com as tuas. Que nos liga afinal? O espaço? Que espaço? O espaço de estarmos distantes, cada um a viver a sua vida? A distancia não liga, afasta. Queres ter a tua vida e eu quero ter a minha? Que nos liga então? Nada. Que fazemos no mesmo espaço então? Assumimos a distancia, abraçamos a distancia e vamos à nossa vida, a nossa respectiva vida, eu a minha e tu a tua. Cada um do seu lado, cada um no seu espaço. Cada um na sua vida, a sua vida que é sua e não do outro. Espaço entre nós? Não, apenas distancia. Fazemos dela o que quisermos. E o que fazemos é criar mais distancia, gerar mais espaço.  Temos todo o espaço do mundo. Até nos perdermos de vista. Por fora e por dentro. Abraçar o esquecimento, abraçar o agora, abraçar as notas de rodapé com letra extra-pequena dos livros da vida de cada um dos quais somos únicos escritores e leitores. Ninguém tem tempo ou espaço para os livros dos outros. Usamos sim tempo e espaço para impingir o nosso livro ao outro. Livro pelas goelas abaixo. Obliteração literal de espaço e distancia. Comemos, digerimos e cagamos para dar espaço a mais um suculento capítulo. Da vida do outro. Por vezes, o mesmo capitulo. Viver é um perpétuo ciclo de reciclagem dos livros da vida....dos outros. Criar a ilusão que habitamos o mesmo espaço entre a maior distancia que pudermos ter entre nós.

sábado, 22 de setembro de 2018

Afinal


Porque se escolhe isto e não aquilo 
quando afinal se privilegia 
algo próximo do silencio?

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

A origem da incerteza


Os pequenos mundos por nós falados
constroem a origem da incerteza.
As palavras trazem dentro de si
outras palavras. Assim é
o não ser do ser,
assim é o prazer de
sofrer, a alegria de viver.