terça-feira, 30 de outubro de 2018

Transcender


«É como se houvesse uma conexão profunda com outro ser humano em todos os seus níveis e dimensões. E talvez esteja aqui uma possível explicação para ter lutado sempre contra o deixar cair essa conexão. É uma coisa que se calhar não se explica, só se sente. Talvez quando olho nos teus olhos, vejo-me a mim, de certo modo. Devolves-me o meu olhar. Sim, comunicamos mais pelo olhar do que pela palavra.»

terça-feira, 16 de outubro de 2018

S/ título


...e agora que não consigo dormir porque não páras de gritar dentro da minha cabeça, vou tomar um dos comprimidos que me deste para dormir. Como é estranho as coisas que fazemos por vezes parecerem conversas com um «eu» futuro. Ou por vezes, fazemos a pergunta de um lado da fronteira e respondemos já do outro lado. Viver é como um interminável processo de partilhas, de quem fica com o quê e as alegrias e dissabores que isso provoca. Um processo de partilhas com nós próprios, com o resto do mundo e de outros para connosco. Nunca se sabe quando o mais pequeno gesto vai mais tarde adquirir uma dimensão maior apenas porque algo mudou. Desceu-se ou subiu-se um degrau, um passo mais e estamos do outro lado da fronteira e é aí que está o resto da vida, já não no passo anterior. Viver é pois o momento entre um passo e outro. Pousar o pé no chão é apenas a mínima pausa para respirar, olhar para trás, olhar para a frente e continuar a viver. E a seu tempo, os comprimidos terão acabado e a tua voz terá ficado tão baixa que deixei de a ouvir.
((Oversharing, my dear, is not honesty)

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Espaço e distancia


O espaço entre nós, a distancia entre nós. Espaço, distancia. Serão a mesma coisa? O espaço entre nós pode ser uma coisa partilhada. Estarmos no mesmo espaço, eu aqui e tu aí. Perto. Tão perto que eu posso estar dentro de ti e o único espaço entre nós pode estar a ser apertado pelas nossas peles suadas.
Já a distancia quer dizer que talvez haja espaço a mais entre nós. Eu estou aqui e tu estás ali, fora do meu alcance e eu fora do teu. Vento pode passar entre nós, oceanos, gaivotas, comboios, rastos de aviões. Distancia implica tempos diferentes. Eu tenho o meu tempo e tu tens o teu. Distancia, opções, decisões. Eu com as minhas e tu com as tuas. Que nos liga afinal? O espaço? Que espaço? O espaço de estarmos distantes, cada um a viver a sua vida? A distancia não liga, afasta. Queres ter a tua vida e eu quero ter a minha? Que nos liga então? Nada. Que fazemos no mesmo espaço então? Assumimos a distancia, abraçamos a distancia e vamos à nossa vida, a nossa respectiva vida, eu a minha e tu a tua. Cada um do seu lado, cada um no seu espaço. Cada um na sua vida, a sua vida que é sua e não do outro. Espaço entre nós? Não, apenas distancia. Fazemos dela o que quisermos. E o que fazemos é criar mais distancia, gerar mais espaço.  Temos todo o espaço do mundo. Até nos perdermos de vista. Por fora e por dentro. Abraçar o esquecimento, abraçar o agora, abraçar as notas de rodapé com letra extra-pequena dos livros da vida de cada um dos quais somos únicos escritores e leitores. Ninguém tem tempo ou espaço para os livros dos outros. Usamos sim tempo e espaço para impingir o nosso livro ao outro. Livro pelas goelas abaixo. Obliteração literal de espaço e distancia. Comemos, digerimos e cagamos para dar espaço a mais um suculento capítulo. Da vida do outro. Por vezes, o mesmo capitulo. Viver é um perpétuo ciclo de reciclagem dos livros da vida....dos outros. Criar a ilusão que habitamos o mesmo espaço entre a maior distancia que pudermos ter entre nós.

sábado, 22 de setembro de 2018

Afinal


Porque se escolhe isto e não aquilo 
quando afinal se privilegia 
algo próximo do silencio?

quinta-feira, 20 de setembro de 2018

A origem da incerteza


Os pequenos mundos por nós falados
constroem a origem da incerteza.
As palavras trazem dentro de si
outras palavras. Assim é
o não ser do ser,
assim é o prazer de
sofrer, a alegria de viver.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Possibilidades


Quando nos encontramos, sentimos necessidade de nos perdemos. Quando nos perdemos, a parte boa são as possibilidades que se abrem para nos encontrarmos.

sábado, 15 de setembro de 2018

Insanidade


Se o mundo enlouqueceu de vez, a que pedaço de insanidade me devo agarrar? Ao pedaço menos insano de ti? Isso não me salvará. Antes me infectará. A minha insanidade é o valor mais caro que possuo. Não abdico dela por nada. Por ela atravesso os dias na escolha da solidão. Porque de facto, Babel fala mais alto nestes tempos. Cada pessoa tem o seu dialecto e ninguém se entende. E neste desentendimento, é na mediocridade que se descobre território comum. Eu coço as tuas costas e tu coças as minhas. Apenas não desafies a minha língua ou eu a tua.Condenados a insanos rios de solidão, contruimos pontes de fósforos que ligam margens em chamas.