sexta-feira, 20 de maio de 2011

Dança

Técnicas desenho, delineadas estratégias pela carne da alma. Pára sem perguntar porquê, nos entretantos de saltitar de pétala em pétala. A polinização ao rubro no lacre das lágrimas esvaidas pelas linhas das folhas. Aqui não se retém memória, aqui não se deseja o desejo. Se um dia acordar e te vir ser nuvem, dançarei para que chovas sobre mim.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Requiem

Sim, apercebo-me da voz de Nick Drake no teu olhar. E afinal, quando chegaste, não te vi. Passamos um pelo outro como estranhos que de facto somos. Borboleta presa na atmosfera adocicada do Verão, minha cidade nua, meus passos no encalço dos teus. Nem as folhas escritas se atrevem a cair, a ficarem para trás, mais a escrita miúda que carregam. Uma voz, um olhar e a noite. E a seguir a barreira. Sim, pode ser a lua, pode ser a voz, pode ser o som dos passos. Queres saber do que falo? Agora que estás na última página? Tens de comprar o livro. No fim, não sou eu que sou deus. És tu.

Sim, apercebo-me, olhando o vazio. Nada realmente muda. A não ser o rosto da ilusão. Afinal, a moeda não sai de tráz da orelha, apenas parece sair. E continua a parecer sair mesmo depois de sabermos o truque. E acaba-se. Acaba-se mesmo assim por escolher o truque, a ilusão.


segunda-feira, 18 de abril de 2011

Para ti

A tua ausência mel ao sol na ponta do anzol. Sombras, passos distantes... A esfinge vem, semblante de partida para o deserto. Vai assim com o caminhar do sol que a visão periférica nunca deixa vislumbrar. Velha e cansada é teu sonho de ti mesma. Na passagem das horas e no desbravar das duvidas. O espelho nunca te diz que nunca estarás tão bem como agora, sempre. O enigma nunca existiu, logo foi a procura da chave a ilusão. Mas nunca poderás dizer que não aprendeste. E eu contigo. Agora é tarde demais para parar.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Inacabado


Desertou para o sol, para o sol azul,
pois de deserto se faz o espaço.
Engarrafamento de nada
entre céu e sol, espaço para brincar.
Perfume forte, adocicado, 
álcool envelhecido.
Sem dar conta, fiquei à espera,
a olhar para cima.
Inacabada ou sem fim
é a solidão de ser
sem memória.

terça-feira, 29 de março de 2011

De volta

Quem queres tu ser? A musa? Apenas tu me pões na vertigem da poesia. Alimento do olhar reflectido na retina da alma, depois no aperto da bomba vermelha de sangue vivo por ti. Ele nada me diz. Acotovela e dá caneladas para me mostrar que sinto. Não podias antes ocasionalmente segredar o que já sei? Diz-me então sem medo: se o coração é um quarto vazio, porque no escuro reluzente da paixão,sorvemos avidamente a saliva de cada um? As palavras oferecidas, os afiados gemidos pela pele dentro até ao centro da carne. Parimos o amor feito bloco de imaculada mármore e passamos os dias a esculpir as curvas dos passos de volta a ti e a mim. O caminho é largo, mas sentimo-lo como berma da falésia.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Aventura da vida

Longas esperas como sessões
de tortura em salas obscuras e húmidas.
Havia que agarrar algo, uma luz,
uma qualquer distorcida esperança.
Enfim...
O momento transformou-se por fim em ouro,
na esquecida alquimia do sentir.
Não me desviarei do meu caminho,
ou trocarei meu brilho interior.

Sim, és agora e sinto a tua carícia,
mas nada me peças em troca.
Quero a inocência inquebrável
de desbravar as sensações, os sentidos.

Neste querer, nada peço.
Dou-me como pão para o esfomeado,
como vinho para o descrente.
Neste querer de me dar,
abraço a aventura de viver.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Estrada

O que recordo é o momento do renascimento, relâmpago lento de mel, lágrima feliz da nuvem sonhada infância. Caminho de mãos dadas contigo, estrada por benevolentes sons. Algures, sei como sabe o sentir dentro, como o teu olhar diz também. Está um tempo virgem para nós e já lá estamos. Em casa. Na distância, o relâmpago, faz-nos sorrir.