sábado, 5 de julho de 2008

Acervo

Que faz de mim silêncio nestes tempos de ensurdecedora surdina? E porque ouço a voz surda veladora dos medos antigos? Não há por acaso luz suficiente para tudo varrer? Que é a distância para um raio de luz, afinal? Um segundo? A eternidade? Pudesse dar-te eu aquilo que receias perder e não hesitaria. Já tenho história dentro de mim para me ocupar por uma pequena eternidade. Tenho os meus sonhos, memórias, todos os sons, imagens e músicas de mim para ouvir quando me sentir um pouco só. E quando assim me sinto, por vezes choro, outras vezes escuto a voz do coração, porque ele não fala por silêncio, fala por sentir.

sábado, 28 de junho de 2008

Primeira vez

Do fascínio das quimeras e da espuma em que elas se esvaem,
fica sempre a enevoada espera,
como as esperas no recreio pelo toque do fim do intervalo.
E....Ó espanto! Ele nunca chega. Tudo nos havia sido entregue,
tudo para abrir e descobrir, desta vez pela primeira vez.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Mapa

Um mapa, nada mais que um mapa. Pouco importa as direcções e as distâncias. Os segredos são luzes obscurecidas pela patine do tempo. E quando nas encruzilhadas, para quê recear? Vai-se por aqui, vai-se por ali... Importa as ligações feitas pelo caminho e o que se deixa para trás.

sábado, 14 de junho de 2008

À procura do último beijo

Não havia maneira de o encontrar. Foi tentando recordar sistematicamente, dia a dia, cada vez mais para trás, sem que o conseguisse encontrar. Fartou-se de pensar, passou horas de olhos fechados em esforçada concentração, folheou páginas de palavras doces, páginas de palavras amargas. Começava já a duvidar se eles tinham mesmo acontecido, aqueles beijos dados e sorvidos como delícias de sentir. Até que, quase por acaso, num papel insignificante, escrito a lápis, ali estava o registo do último beijo dado com amor... Não era fantasia, tinha acontecido mesmo, muitas vezes até. O que aquele tinha de especial era o facto de ser o último. Por uma poeira de instante, foi real, foi agora de novo. Todos tinham sido deliciosos, apaixonados, mas havia dois especiais: o primeiro e o último. E finalmente ali estava o registo do último beijo, como que para validar a memória, como se ajudasse a desbloquear toda a mágoa nublada cobrindo a memória. Pensou no beijo, pensou na noite em que, ainda com o sabor dela na boca, escreveu os eventos desse dia. Ela já ali não estava, mas por entre as lágrimas tiranas e lentas, ele havia finalmente reencontrado um pouco do que perdera.

terça-feira, 10 de junho de 2008

Frágil

Esperança, poderiamos por vezes perguntar o que é isso? Hoje, é como uma caricia no meu rosto. Sinto o devir como algo que faz sentido. Mas é tão frágil e tantas vezes fugidio. Agora é assim, mais logo talvez não seja. É na constância deste sentir que se encontra muita da tranquilidade e mesmo felicidade quotidiana.

domingo, 8 de junho de 2008

Breve

Se o vento não te levar,
levo-te eu nas nuvens
que hei-de sonhar.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Alquimia

Quero falar de coisas positivas, de vozes amigas, dos espaços azuis entre as nuvens. Quero falar da alquimia do sentir, do ser, dessa espécie de sacerdócio a que nos votamos dia a dia. Quero dizer que acredito, que não existe outro caminho que não seja um caminho de acreditar. Acreditar em mim próprio e no caminho que vou construindo. Neste olhar para mim próprio, que nada tem a ver com espelhos, é um olhar tudo o que me rodeia com a compaixão que a própria vida inspira. Que fazer da inconfessada solidão suada gota a gota pelos poros? Não, por este sentir não gostamos de nos ver. O medo é segurança e a insegurança, matura prudência. Assim, onde está a realidade do que sentimos? Sentimos livremente? Ou sentimos com o peso e receio do passado? Porque preferimos estar num perpétuo choque com a densidade do passado? Que bengala é essa que nos faz caminhar cambaleantes? Quero falar de alquimia. Das possibilidades que somos a cada momento.