quarta-feira, 20 de abril de 2022

Broken

 

There are no angels, 

only broken people with broken hearts, 

broken minds and broken souls

segunda-feira, 4 de abril de 2022

Um certo estranhamento


 Um certo estranhamento com a debandada da vida. Um desnorte sem rumo ou sorte, um pé ante pé de longa distância. Diz-me por onde andas,  por onde passeias as imperfeições. Nunca nada será de tanto enigma, nunca tudo estará tão perto, na saudade.

sábado, 19 de março de 2022

Quando o entardecer era madrugada

Quando o entardecer era madrugada
e eram os nossos sonhos suspensos nos montes.
Eram neblina sebastianica na promessa
de um nunca vir. E era o nosso baile
o silêncio do percurso das nuvens e
a papoila aguardava sozinha o convite
para dançar. E tu estendeste-lhe o sol.
E o nariz da estátua cega pingava orvalho
e a minha compaixão pulsou
pelo seu coração de pedra.
Doce, doce, era o estarmos ali já
na nossa ausência, a sorrir da memória 
e dos grãos de areia. 

quarta-feira, 2 de março de 2022

Em dias


Em dias de tempestade, cria-se o colo possível. 
Em dias de colo, sonha-se o sol do dia seguinte. 
Em dias de sol, recorda-se a chuva no rosto.
Em dias de chuva, renasce-se por entre as lágrimas.

domingo, 6 de fevereiro de 2022

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Sim


 Sim, hoje olho o céu e não vejo azul, não vejo nuvens, não vejo infinito. Vejo-te a ti como um vasto zepelim feito miragem a cobrir-me na lenta passagem de um dia que se recusa a terminar. É a casota dos pardais pregada na árvore perdida na imensidão do pinhal, perdido na imensidão de um canto da savana irredutível ao dia, na solidão ausente das estrelas ou da Lua. Fica a semente, qual bomba-relógio, da inevitabilidade de regressar ao lugar anterior ao primeiro passo.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Nu futuro



No futuro, os carros vão continuar a não voar.
No futuro, ninguém vai lembrar o passado, 
ninguém vai pensar no futuro.
No futuro, só existirá o presente.
O presente será um presente 
que nos oferecemos continuamente.
No futuro, ninguém vai à Lua ou a Marte,
ninguém vai à merda ou a Fátima.
No futuro, ter-se-á deixado de lutar
pelas coisas antigas,
porque não haverá mais coisas antigas.
Haverá coisas modernas já com dezenas de anos.
No futuro, irão querer acabar
com os intervalos de ficção,
por interromperem o fluxo de publicidade.
No futuro, ninguém deixa de fumar, 
fumar rejuvenesce. É um batismo.
Ficar doente não existe. Existe
ficar com saúde e precisar de tratamento.
Ser diferente é ser igual.
No futuro, nenhuma pele estará limpa.
Almas terão partido há muito.
Todos seremos o imperador Ming no futuro,
e Flash Gordon a única corporação ainda de pé.
Táo imóvel como gorda, mais a sua
imensa boca de aspirador.
Ninguém aspira a ser nada e nada é coisa
que não existe. Estaremos sempre cheios de tudo
a toda a hora. Orgasmos?
Coisa datada e sobrevalorizada.

Isto sou eu a vir-me. Não digas nada.
Isto sou eu a vir-me agora, amanhã, agora.
No futuro não me venho mais, 
no futuro, o orgasmo vai sair caro,
vai pagar imposto depois de ter pago tributo.
Não vai haver jornal para a notícia.
Não vai haver luz no candeeiro.
Não me vais entrar nua porta dentro, 
mãos a esconder a barriga.
Não me vais meter dentro de ti
e eu não me vou vir,
porque no futuro não vai haver orgasmos.
No futuro, ter-te-ei chamado
refinada puta no passado e vou 
recordar o caos do teu vir.
No futuro, não haverá roupa
para tanta nudez. Nu futuro
ninguém vai ter piada.