segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Balada da menina ausente

O cabelo dela é assim como uma daquelas aconchegantes memórias de infância. E depois, diz serem pequenos os seus olhos. Olhar fundo, vibrante da noite na planície. Olhar fechado para ver o que quer ver. O vazio. Ela podia ser uma pequena princesa, de pé na berma da falésia, ao vento, a procurar no céu o seu pequeno planeta. E a sua pequena rosa. Cada lágrima devolve um segredo ao mundo. Um rio. E se o seguirmos até à nascente, veremos um coração a chorar. Na planície, a máquina da imaginação plana com imóveis asas de anjo, mas imagina-se sempre com os pés no chão. Um exercício em disciplina. (Se sonha, é porque voa no escuro. Se não sonha, é como fome espiral de um dia a grande velocidade. Devagarinho). E durante todo este tempo ela dormia, bonita e indefesa como uma menina, pois enquanto dormia, podia permitir-se ser o centro da escuridão fervilhante que eram os sonhos. Neles, nenhuma silhueta era vazio e nenhum vazio era meio caminho. Dentro dela, cada planície ondulante de trigo era um constante renovar de um gentil horizonte.

domingo, 28 de setembro de 2008

Pensa, sente

Pensa com o coração, sente com a mente.
Fecha os olhos, porque já não precisas realmente de ver.
O instinto ganha sentido. a visão periférica vai-se tornando certeza.
Toda a coragem de viver vem daí:
do modo como vamos escutando o nosso próprio instinto.

sábado, 13 de setembro de 2008

O som

Recorda o coração que bate algures na cidade. O seu ritmo dita a cadência dos passos dos amantes, dos sonhadores, dos artistas, dos ninguém que nada mais têm do que o amor para lhes iluminar a vida. Recorda esse batimento debaixo da tua pele, esse apelo, esse grito. Danças sem te moveres, moves-te de olhos fechados, confiando na certeza do caminho, na certeza das direcções, do ritmo. Recorda o adeus, a ferida aberta, o dares-te para sempre ali, naquele instante. Recorda a voz surda, o lamento cego, a infindável mágoa, a inacreditável alegria. Recorda-o sempre dentro de ti, não esqueças nunca aquele dentro de quem amas, de quem amaste. Numa esquina qualquer, num jardim, ele nasce e renasce sem nunca morrer, é inevitável como a vida, vibrante e quente como o sol. Hoje, quando saires para a rua, pára por um pouco e escuta. Sustem a respiração. E sobrepondo-se lentamente à música dissonante da cidade, o teu coração irá reconhecer, livre de qualquer dúvida, o som do amor.
Graffiti fotografado na Travessa do Carregal, no Porto

domingo, 7 de setembro de 2008

Celebração

Ofereceste-me o arco-íris
e eu dei-te o amanhecer.
Entre um e outro regamos
o orvalho de dor e alegria.
Não cheguei a partir
nem tua chegada foi surpresa.
A celebração navega dentro.
Porque não há-de ser essa
a maior das dádivas?

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Regresso

Ensina-me a sulcar o caminho
que me leva para longe da tua ausência.
Nela, descubro as cores da intemporalidade.
Ensina-me a voz e a vida, os passos de volta.

Vieste, direi eu um dia.
Lá, onde dissemos adeus,
sentirei os teus lábios mesmo antes de te beijar.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Flor de luz

Uma flor, da cor do teu sentir,
uma flor para apaziguar a dor.
E se me deixares decidir,
do sol terá a cor
para que tenhas sempre
um norte ao qual voltar.
Porque na escuridão
existe algures
a luz de um coração.

domingo, 10 de agosto de 2008

Noutro lado qualquer

A difícil escrita ultrapassada
pela corrente de ar da tua passagem
torna-se mistério em desertos
um dia tomados como praias.
Feliz nos sucessivos luares primaveris,
contínua recusa da melancolia à espreita.
A escrita faz-se não para a invocar,
mas para a fintar.
Ela que se canse a procurar-me.
Estarei sempre noutro lado qualquer
à espera da espera por ti.
Sei que virás, por isso escrevo.