terça-feira, 3 de junho de 2014

Saber de mim


Quero saber de mim de um modo como as árvores delas não sabem, de um modo como as nuvens não sabem afinal de que são feitas. Quero saber de mim, como negociação do relâmpago com a eternidade, do sol que nada entende do dia e da noite ou a lua das marés. Quero saber de mim, como se em mim todas as bibliotecas do mundo convergissem e de mim uma única palavra brotasse. Uma palavra-relâmpago, uma palavra-eternidade, uma palavra-árvore. Uma palavra-sol para saber de mim. Uma palavra-chave. Porque tudo permite, tudo aceita, tudo vê, tudo sente. Quero saber de mim, porque ao saber de mim, sei de ti, sei de tudo. Sentir é saber, fechar os olhos é vislumbrar. Quero saber de mim para me bastar, para me revelar, para ser tudo e coisa nenhuma. Quero sentir-me e não saber que me sinto. Quero deixar de querer

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Alguém




Há por aí alguém que saiba de facto o que é e pratique o conceito de espalhar paz e tranquilidade pelas pessoas com quem priva? Que seja adepta da frontalidade, que diga uma coisa e essa coisa seja o reflexo do que realmente sente e pensa? Que não fale unicamente de si e saiba reconhecer que o seu interlocutor também tem uma vida e histórias para contar. Alguém com quem uma pessoa se possa sentir perfeitamente descontraída e que se dê na igual medida em que aceita receber. Que seja inteligente, mas não pontifique, que não disfarce a falta de intelecto com porcaria e mexericos e... os seus próprios conflitos? Alguém que seja de facto bonito por dentro? Beleza não é algo subjectivo. A beleza de que falo tem a ver com constância, com coerência no ser e no estar na progressão dos dias. Alguém que nos faça sentir bem, mesmo quando estamos longe dessa pessoa. Alguém que saiba o valor e o peso da responsabilidade de nos ter cativado. A beleza de não mentir, de não omitir, de não ficcionar a própria vida e circunstâncias de modo a manipular outros, com meias mentiras e meias verdades. Uma pessoa assim só pode ter uma existência triste e assustada. Por isso, procuro outro tipo de pessoa. Alguém que não seja compulsivo no bem que faz, como se corresse uma lista de compras; alguém que se responsabilize pela terra queimada que deixa atrás de si. Se souberem de uma pessoa assim, eu gostaria de conhecer. Obrigado.

«Don't be reckless with other people's hearts. Don't put up with people who are reckless with yours.»

sábado, 12 de abril de 2014

O futuro



Para que serve o futuro? Eu digo-vos para que serve o futuro. O futuro serve, no momento em que se torna presente, olharmos para trás e vermos o caminho percorrido: se as coisas más, más ficaram ou se afinal acabaram por ser coisas boas; se as coisas boas afinal não foram assim tão boas e algumas delas até mais pareceram maus sonhos; e como as desgraças, apesar de desgraças terem sido, delas terem germinado coisas tão boas que no presente seria impensável viver sem elas. O futuro serve para irmos percebendo se crescemos. O futuro, quando lá chegamos, é um binóculo com vistas para o passado e nos revela se temos vindo a caminhar bem ou mal, se tudo afinal, não era suposto ter sido assim. Poderíamos dizer então que não é o futuro de facto que nos dá esperança, mas o passado.

segunda-feira, 17 de março de 2014

O presente


Quanto mais a um nível emocional retirarmos de uma situação, mais facilmente poderemos deixá-la para trás. Apenas quando, mesmo inconscientemente, não tivermos aprendido o suficiente, iremos sentir uma perda. Portanto, em vez de olharmos para trás ou fazermos filmes com o futuro, tratemos de retirar as aprendizagens que o presente tem para nos proporcionar.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

70


Que andamos nós cá a fazer? Nenhum ser humano pediu para nascer. A vida é-nos literalmente impingida. As birras surgem depois de cá estarmos. Temos e sabemos que temos um tempo limitado de vida. Sai-nos na rifa um determinado tempo e espaço e tudo o que de bom e mau eles têm tem para oferecer. Com alguma sorte (ou azar), temos uns 70 anos para a experimentar e depois acaba-se tudo. Qual o sentido disto então? Por que parâmetros nos devemos guiar? Temos esta sensação que a vida vai durar indefinidamente. Sabemos que vamos morrer sim, mas somos os piores crentes na nossa própria finitude. As pessoas são incrivelmente desajeitadas e sem recursos quando se trata de consertar algo nelas próprias.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

Pensamento para 2014


Sei que tudo acontece por um motivo. E as pessoas passam pela nossa vida (e nós pelas delas) por motivos que não conseguimos ver no momento. Mas é importante confiar nisso, que estamos num processo de aprendizagem. E nem sempre o que nos parece mais tentador ou o que mais desejamos é de facto o que é melhor para nós. É apenas a vida a ensinar-nos algo sobre nós próprios. E aceitar isto é muitas vezes duro, impossível mesmo. É importante, não nos movermos por entre as coisas, mas irmos pairando sobre elas. A nossa harmonia é essa. 
É importante reflectir sobre as coisas, mas não ficar paralisado por elas. É importante pairar sobre as coisas, não ir de encontro a elas ou resistir-lhes. É importante confiar nas cartas que a vida nos dá, no caminho que é o nosso ou nós dele. O importante não é ganhar, é ir jogando e ir jogando com mais sabedoria até o acto de ganhar ser irrelevante.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

Dentro



Acredito que andamos cá para amar e ser amados. Acredito mais nisso do que em qualquer outra coisa. Porque outro motivo haveríamos de ser racionais? Precisamente para podermos ser irracionais e crescermos por dentro. Todo o caminho é singular e intimo. O destino é mais ou menos similar para todos, já a viagem é diferente para cada um. Não comandamos tanto os passos que damos. Acredito que é o caminho que fazemos que é o nosso mestre. Apenas conseguimos interpretar o que o caminho passado nos diz. Quantas vezes, depois de pesadas adversidades, damos por nós num lugar melhor, mais em sintonia com nós próprios e consequentemente, com o que nos rodeia? Aí realizamos que afinal tudo fez sentido, que talvez fosse suposto ter sido assim. Quando amamos e acredito que esse momento chega a todos nós varias vezes ao longo da vida, de maneiras diferentes, estamos sempre, mesmo inconscientemente, num estado emocional superior. O amor é a chave e não é o outro que é a fechadura, mas sim nós próprios. Qualquer resposta, aprendizagem e crescimento será sempre de nós para nós. E deste evoluir irradia toda a harmonia (ou desarmonia) com que fluímos por entre todos os outros caminhos. Em última análise, o mundo não é algo que está fora de nós. O mundo começa em nós.