sábado, 20 de fevereiro de 2021

S/ título


Ofereceste-me o arco-íris 
e eu dei-te o amanhecer. 
Entre um e outro regamos 
o orvalho de dor e alegria. 
Nunca cheguei a partir
nem a tua chegada foi surpresa. 
Estamos um no outro. 
Porque não há-de ser essa 
a maior das dádivas?


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Por todo o lado


 Gostava de te ter conhecido há mais tempo. 
Num qualquer Verão onde os dias são eternos
e sonhar é coisa sempre ao longe. 
Porque pressa só o suor a leva
no brazeiro trepidante da estrada. 
Hoje sou um velho carvalho outonal
e a brisa vivida muito antes,
é agora um lento castigo.

Por todo o lado há pedaços de mim
nas mais belas tonalidades.
Enfrento a nudez sem medos.
O horizonte abraça-me.
As minhas palavras são as tuas
e as tuas, sem o saberes, são as minhas.
Nunca deixamos de nos beijar.
Tudo é cheiro de memórias em cores
levadas pelas asas das borboletas.
Ou na certeza do arco-iris
em certas tardes de clamores distantes.
Talvez nunca tenhas existido.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Momento de ver


Sim, hoje olho o céu e não vejo azul, não vejo nuvens, não vejo infinito. Vejo-te a ti como um vasto zepelim feito miragem a cobrir-me na lenta passagem de um dia que se recusa a terminar. É a casota dos pardais pregada na árvore perdida na imensidão do pinhal, perdido na imensidão de um canto da savana irredutível ao dia, na solidão ausente das estrelas ou da Lua. Fica a semente, qual bomba-relógio, da inevitabilidade de regressar ao lugar anterior ao primeiro passo.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Ontem, já quase hoje


Que seja assim sempre a irredutibilidade de aqui estar, resistente sem quase nunca dar por ela. Que seja assim como o dia findo, tão fascista de irrepetível. Não lhe compete oferecer a suspensão. Cabe-nos usufruí-la e dentro dela viver a eternidade nunca roubada. Sim, sim, tudo passa, tudo passa, mas enquanto não passa...

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Por perto


«...Quando sinto que o mundo está ao contrário, escondo-me em ti. Sempre tiveste essa generosidade. E quando de ti me fazes de novo emergir, faço-o com renovado desejo de enfrentar a minha própria criatividade, deixando-a seduzir-me. Aí, tudo é luz e sabes o que isso quer dizer...Penso eu, com um sorriso nos lábios. Andas por perto.»

domingo, 22 de novembro de 2020

Dancer


Meu anjo, 
umas palavras para ti:
Milagre da Natureza.
O rosto é o Universo
e o corpo a Terra,  
nu olhar a passagem do tempo,
nus lábios o livro de ti.
Nu ventre, uma luz só tua.
Nas mãos a dança da infância,
nas pernas a nudez de criar.
A vulnerabilidade, 
a maior das dádivas.
Danças arco-íris ao vento
nu ondular de um sentir
sem passado nem devir. 
O momento presente
é de quem te vê.
Eternidade tens tu,
fluida nu existir.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

«Ficou tudo no segredo dos deuses»


«lá para os 10, 11 anos, embora magra, comecei a ficar com um corpinho robusto e dourado. Foi o princípio de outro inferno. Agora tenho vergonha de falar nisto... Vou respirar fundo. Nem eu ainda sabia o que isso era e tentaram violar-me. Foi a minha irmã que apareceu e me defendeu. Ficou tudo no segredo dos deuses»