domingo, 4 de abril de 2021

A mulher e o seu cão



O cão, elevado, na retaguarda vigilante

numa canzana por cumprir.

A mulher, verdadeira fugidia esfinge,

pés ausentes fincados. É a sua

imobilidade e expressão a convocarem atenção,

e de seguida, os novos cabelos brancos

na negra cabeleira tão saudosa

por ter sido grades da jaula para mim criada.

Não fugi, expulsou-me e manteve intacto

o enigma incandescente.


O cão olha para um qualquer horizonte longínquo.

Essa é a sua essência segura e tranquila.

Ela, quem sabe para onde olha?

Para dentro de si, talvez.

Para todos os segredos plantados

pelos caminhos. Alguns deles eram pura delícia,

alguns deles eram ácido e amoníaco.

Olha o futuro, os caminhos perdidos, estropiados.

Olha o futuro encarquilhado, incerto. Em desafio.

É essa a incerteza no seu olhar:

temor, inquietação, mágoa.

A arrogância num enigma

no qual se deixou emparedar.

A esfinge é o olhar.

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